7 de mai. de 2013

Macacos - Clarice Lispector


M A C A C O S



Clarice Lispector

Era Ano Novo e o meu presente tinha acabado de entrar pela porta. Para minha surpresa não era um brinquedo novo, mas sim um MICO. Ele entrou rápido pela porta comendo bananas e examinando tudo o que via, balançando seu longo rabo. Subia e descia pelos varais e dava berros e gritos, jogando as cascas de banana por todo lado.

Meu menino menor sofria com o medo de que o macaco morresse e eu passei a ser a responsável por cuidar do macaco e por não permitir que nada de ruim acontecesse a ele. Mas um dia, uma amiga minha vendo toda a minha preocupação pelo macaco, levou-o embora e o entregou a uns meninos que viviam no morro próximo a minha casa.

Um ano depois, passeando por Copacabana vi uma multidão. Aproximei-me e vi que um homem vendia macacos. Lembrei dos meus filhos e imaginei como ficariam caso ganhassem outro macaco de estimação. Porém, não era um simples macaco, era uma macaca: Lizette.

Lizette era pequenininha e mal cabia na palma da mão. Tinha saia, brincos, colar e pulseira de baiana, além de olhos redondos, grandes, vivos.

Lizette era toda delicada, doce, jamais desarrumava suas roupas e adorava o colar vermelho brilhante que carregava em seu pescoço. A macaquinha também adorava dormir, mas era terrível para comer… tinha preguiça de comida. Os meninos a adoravam e como carinho recebiam mordidinhas de leve, como forma de afeição.

No terceiro dia em que Lizette estava em nossa casa reparei nos seus gestos um ar de lerdeza e suavidade além da conta. Pensei: mas isso não é suavidade, isso é morte.

Percebi naquele momento que Lizette estava partindo e chamei meus meninos e contei o que acabava de descobrir.

Vi meus filhos tristes e naquele instante percebi até que ponto nosso amor por ela teria chegado. Enrolei Lizette num guardanapo e fui ao hospital mais próximo.

No hospital eu olhava para Lizette, mas não a reconhecia. Aqueles grandes olhos que havia citado, agora eram pequeninos e exaustos. O médico lhe dava oxigênio e Lizette desejava reagir, mas não conseguia.

O enfermeiro que ali estava disse-me de forma rude de que Lizette não sobreviveria e ainda sim, censurou-me alertando-me sobre ter comprado macaco na rua…

Voltei-me para os meus meninos e ficamos em silêncio por um segundo. Decidimos que se o enfermeiro a curasse, ele poderia ficar com ela como prêmio pelo grandioso trabalho.

O enfermeiro olhava para Lizette e dizia que ela era bonita. Levantava seus braços, mexia em suas perninhas e ela quase não respondia. Olhou, olhou e mesmo após a proposta disse-me que Lizette era nossa, e que não a queria.

Fomos embora de guardanapo vazio e no dia seguinte ligaram para nossa casa informando que Lizette tinha acabado de morrer.

Meu menino mais novo olhou-me nos olhos e perguntou:

- Você acha que Lizette morreu de brincos, mamãe?

-Sim – respondi.

Uma semana depois meu filho mais velho disse:

-Mãe, você se parece tanto com a Lizette.

-Eu também gosto de você – respondi.

Nenhum comentário:

Postar um comentário